Crise convulsiva e epilepsia não são sinônimos. A diferença impacta no tratamento

Todo mundo que tem crise convulsiva tem epilepsia?

Já vimos anteriormente o que é e quais são os sintomas de uma crise convulsiva:
https://drarebeccarm.com.br/blog/5-o-que-fazer-quando-vejo-uma-pessoa-tendo-convulsao.

A epilepsia é uma doença neurológica caracterizada por um risco aumentado de crises epilépticas recorrentes e persistentes. Segundo a definição da ILAE (Liga Internacional Contra a Epilepsia), o diagnóstico de epilepsia pode ser feito quando ocorre:

  • Pelo menos duas crises epilépticas não provocadas, com intervalo superior a 24 horas entre elas;
  • Uma crise epiléptica não provocada, associada a um risco de recorrência estimado em pelo menos 60%.

A partir dessa definição, podemos concluir duas coisas importantes:

1) Nem todo mundo que tem uma crise convulsiva tem epilepsia

Existem situações em que a crise convulsiva acontece como consequência de outra doença, sem que a pessoa tenha epilepsia.

Um exemplo clássico é a meningite, infecção do sistema nervoso central (viral ou bacteriana) que pode causar dor de cabeça, febre, vômitos, prostração, sonolência e crises convulsivas.

Nesses casos, podem ser utilizados medicamentos anticonvulsivantes durante o tratamento da infecção. Porém, após a resolução do quadro, o paciente geralmente não precisa manter o uso contínuo dessas medicações. Essas são chamadas de crises provocadas ou sintomáticas.

Além das doenças neurológicas, alterações metabólicas também podem desencadear crises.
Um exemplo são os distúrbios eletrolíticos — alterações nos níveis de sódio, cálcio ou magnésio no sangue — que podem ocorrer por diarreia, vômitos, doença renal ou uso de medicamentos. Em casos graves, podem causar confusão mental, letargia e crises convulsivas.
Quando o desequilíbrio é corrigido, a tendência é que as crises não se repitam.

2) Em algumas pessoas, uma única crise pode levar ao diagnóstico de epilepsia

Por outro lado, existem pacientes que, mesmo após a primeira crise convulsiva, já recebem o diagnóstico de epilepsia e iniciam tratamento com medicamentos antiepilépticos.

Isso acontece quando o neurologista identifica um risco elevado de recorrência.

Um exemplo é o paciente que já teve um AVC (acidente vascular cerebral). Mesmo que tenha se recuperado bem, o AVC costuma deixar uma “cicatriz” no cérebro. Essa área pode alterar a condução dos impulsos elétricos e se tornar um foco gerador de crises (área epileptogênica).
Assim, se esse paciente apresentar uma crise convulsiva, o risco de novas crises é alto — e o diagnóstico de epilepsia geralmente é estabelecido já nesse momento.

Em resumo

Nem toda crise convulsiva significa epilepsia.
Epilepsia é uma condição caracterizada por predisposição persistente a crises recorrentes, e o diagnóstico depende do contexto clínico e da avaliação neurológica.

Bibliografia

Epilepsia prática - condutas para não especialistas / Clarissa Lin Yasuda – São Paulo : Leitura Médica Ltda., 2024.

Purple book: guia prático para o tratamento de epilepsias : recomendações para tratamento de
crises e síndromes epiléticas de um grupo de especialistas brasileiros / Elza Márcia Targas Yacubian, Maria Luiza Manreza, Vera Cristina Terra. -- 2. ed. -- São Paulo : Planmark, 2020.